quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

"Você vai rir se lhe disser
que estou cheio de flor e passarinho...
Que nada do que amei na vida se acabou:
e mal consigo andar tanto isso pesa."


Ferreira Gullar

domingo, 26 de dezembro de 2010

'...


uma história sobre amores eternos,
sobre amores curtos.
Sobre alegrias pequenas e grandes.
Um rosto é uma história sobre as pessoas que fomos,
sobre as pessoas que queremos ser…
sobre caminhos…
sobre encontros…
Um rosto é uma história sobre

espelhos que nos viram


Um rosto...
é uma história escrita pelo tempo...'

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

'Procuro sinais de algum amor teu. Vestígios de noites passadas. Tu não me vês, estou incógnita a te observar. Como sempre estive, olhando pelas janelas, de longe, coração apertado. Nós poderíamos ser amigos e trocar confidências. Assistiríamos a filmes, taça de vinho nas mãos, e tu me detalharias as tuas paixões e desatinos. Nós poderíamos ser amantes que bebem champanhe pela manhã aos beijos num hotel em Paris. Caminharíamos pela beira do Sena, e eu te olharia atenta, numa tentativa indisfarçável de gravar o momento e guardá-lo comigo até o fim dos meus dias. Ou poderíamos ser apenas o que somos, duas pessoas com uma ligação estranha, sutilezas e asperezas subentendidas, possibilidades de surpresas boas. Ou não. Difícil saber. Bato minhas asas em retirada. Tu dormes, e nos teus sonhos mais secretos, não posso entrar. Embora queira. À distância, permaneço te contemplando. E me pergunto se, quem sabe um dia, na hora certa, nosso encontro pode acontecer inteiro. Porque tu és o único que habita a minha solidão.'

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco."

[Grande Gabriel García Márquez ... ]



 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

'E é tão teu
Meu coração
Aflito e manso...'
'O que me compõe é tudo o que minha alma já viveu.
É tudo o que meu corpo já sentiu.
É o que eu me lembro, sonho, sinto:
Amores, dores... Medos, vícios.
É o que eu crio para mim
E o que eu tiro... Desmorono...
E o que fica é só o verdadeiro:
Componho-me.
O que me habita é tudo o que eu consinto.
Tudo que é intrínseco, eu convivo.
Todos os “eus” me habitam
E todos eles gritam...
Fugas, fogueiras, fuzuês...
Habitam-me todos os sexos...
Crenças, cores, quereres...
E eu não fujo:
Habito-me.
O que eu conheço é o que eu busco
E eu busco só o total...
O que toca fundo, o que tem sentido.
Meio termo, meio passo, meio vivo;
O meio me faz mal.
Quem não se conhece aceita qualquer coisa...
Não conheço o caminho,... Mas hei de seguir...
Não sei do mundo, mas sei de mim:
Conheço-me.
O que eu permito é tudo que me eleva
Se não engrandece, não me acrescenta: desce!
A luz e a sombra me somam, me mostram, me são.
Sou o doce e o veneno, não há o que escolher...
Verso e inverso, yin-yang, eu me completo.
Não me tiro:
Permito-me.
Tudo que minha alma já viveu me compõe
E o que me compõe habita em mim
E o que habita em mim, eu conheço
E o que eu conheço eu permito
E o que eu permito, é.
Eu Sou.
Permito-me!'


terça-feira, 30 de novembro de 2010

TUDO DE MIM...[IRA]



'...E tudo que eu posso fazer é retribuir o seu carinho
Te dando o maior amor que alguém já pôde sentir
Não quero mais isso acabe nunca mais
O seu olhar que se dirige ao meu
Por que eu gosto
Do seu cheiro...'





sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Preciso, sei que preciso
te olhar diferente,
repousar mais doce minha palavra
sobre a tua boca,
saber que meu riso deve vir de leve
sobre tua felicidade,
aprender que minha pressa não me leva
para tua mansidão,
perceber que não precisa de mim doce
me quer serena,
notar que preciso das tuas mãos
e da tua segurança,
e eu estou correndo tanto em direção
de nada e sem saber

E eu te preciso, sei que preciso
não por solidão ou por necessidade,
mas por amor, por gostar, por querer.
Preciso me aproximar, ceder,
compreender que o caminho é outro, mas não.


Cáh Morandi

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Hoje...

“Te­nho que ter paciência para não me perder dentro de mim: vivo me perdendo de vista. Preciso de paciência porque sou vários caminhos, inclusive o fatal beco-sem-saída.” 
[Clarice Lispector]


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Acrilic on Canvas [Legião Urbana]

"É saudade, então
E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez
Os traços copiei do que não aconteceu
As cores que escolhi entre as tintas que inventei
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três
...

Às vezes é difícil esquecer:
"Sinto muito, ela não mora mais aqui"
Mas então, por que eu finjo
Que acredito no que invento?
Nada disso aconteceu assim
Não foi desse jeito
Ninguém sofreu
É só você que me provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De "amor-perfeito"
E "não-te-esqueças-de-mim"

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

'O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.'
[Clarice Lispector]

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Viver...

é um pouco como jogar boomerang. Não sei se isso é óbvio pra todo mundo, mas pra mim já foi muito difícil encarar as coisas desse jeito. De vez em quando você entra numa bad que parece que vai durar a vida inteira, mas de repente ela vai se calando e você vai voltando a ser o que era antes. Isso é lindo. Só quem já chegou no fundo de qualquer tipo de poço sabe como é bonito voltar à superfície. A escalada é difícil, a gente escorrega, se machuca, sofre e sangra. Mas, de repente, você deu o último passo. Os arranhões vão estar lá e talvez o escuro incomode um pouco à noite, mas vai passar. Com algumas cicatrizes pelo corpo&coração, você levanta e segue em frente: vivo como há tempos não se sentia. Não sei se a natureza é vingativa ou se isso é apenas o natural - aquele velho papo de plantar e colher - mas o troco sempre volta pra quem se deu demais. E eu, in ou felizmente, sei o que é isso. Com meus poucos vinte e um anos já senti talvez mais do que deveria, já chorei mais do que deveria, já me machuquei mais do que deveria e, mais triste ainda, quis morrer mais do que poderia. Já me vi fraca como nunca imaginei que alguém pudesse se sentir e continuar vivo. Não me envergonha contar isso, pelo contrário, queria poder dizer pra todo mundo que tá passando pelo que eu já passei que as coisas vão ficar bem. E vão mesmo, por mais que por enquanto seja a coisa mais impossível de visualizar. As cinzas vão voltar a ser fênix: em cores neon.
 
[por Tαngєяinє]

domingo, 31 de outubro de 2010

Meu JARDIM

"...tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores
tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho
tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho
tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho
escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho
Estou podando meu jardim,
Estou cuidando bem de mim..."
(Vander Lee)
 

'Se você me der qualquer coisa

...Por melhor e mais bonita que ela seja -, eu a estrago em instantes.É como um dom, algo que faço sem muito esforço. Sem perceber.Nove meses no ventre me deu tempo de sobra para me machucar. Estraguei a mim mesma, antes de nascer. Já vim ao mundo assim: quebrada.E nem mesmo quando eu durmo consigo evitar...

... Sempre destruo meus sonhos.'

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

...

"Minha vida tem um buraco que não sei de que é feito. Era para tudo ser muito fácil, mas eu encasquetei de fazer tudo do jeito mais difícil. Meu problema sou só eu. Não me odeie por eu ser assim. Eu tenho a culpa de todas as culpas e, as que não tenho, tomo para mim. Eu tenho crises de segunda a noite porque me dá um vazio de não me achar. Eu tenho crises de quarta porque me achei e não gostei. Tem quem me ache sublime por tão alegre e tão melancólica assim. Eu me acho insuportável. Ok, e ao mesmo tempo a pessoa mais legal do mundo.
Eu não gosto que me escolham caminhos e fico puta porque há um tempo tenho deixado a vida escolher. EU TENHO TUDO E ÀS VEZES ME SINTO COMPLETAMENTE SEM NADA SÓ PORQUE A CHUVA CAI E O SOL NÃO BRILHA. E se brilha, tem o maldito tom de amarelo a que eu chamo de pureza. Que eu já não sei se sei distinguir. EU TENHO MEDO DE CRESCER E AO MESMO TEMPO CRESCI RÁPIDO DEMAIS. Eu me afobo e paro. MAS QUANDO PARO, FICO AFOBADA, PORQUE ACHO QUE O TEMPO PASSOU E EU NÃO FUI JUNTO. Porque você gosta de mim? Você me perguntou e se perguntou isso em um recado de voz. Eu não sei responder
Você gosta de mim por tudo o que eu sou e por tudo o que eu não sou. E eu sofro, porque não sei ser não sendo. Não ser é ser sem escolher. E eu gosto de escolher, lembra? De verdade? Não sei porque te falo tudo isso. Acho que quero te convencer de uma vez que eu sou louca para poder agir feito uma sem o medo de de repente você descobrir que eu sou louca e de repente não gostar mais de mim. Ou quero te convencer que não existe porque gostar de mim. Só porque sou louca. Você me pediu para escrever um poema para você. Mas para escrever poema, tem um lado meu que precisa de férias dos dedos ávidos por palavras que façam sentido sem beleza. PORQUE, AFINAL, ÀS VEZES EU ACREDITO EM BELEZA, AS VEZES NÃO. Sabe porque eu não me encontro? Porque POR DEFINIÇÃO EU SOU CONTRADITÓRIA e quem é contraditória não pode se definir. Se não me defino, não sei quem sou, não me encontro.MAS SE DEIXO DE SER CONTRADITÓRIA, DEIXO DE SER EU E, LOGO, TAMBÉM NÃO ME ENCONTRO. Me explica, porque você encanou de me encontrar?"
[Myla Verzola]

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Os Dragões Não Conhessem o Paraíso (CAIO F. ABREU)

        TENHO um dragão que mora comigo.
        Não, isso não é verdade.
        Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma como precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.
        Isso me pareceu grandiloqüente e sábio como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha - felizmente indecifrável - lucidez daquele dia.
        Estou me confundindo, estou me dispersando.
        O guardanapo, a frase, a mancha, o medo - isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora - as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu -, só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreensão fosse sedutora a ponto de convencê-lo a voltar, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo a. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.
        Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.
        Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentada no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para transformar-se numa grande chaga.
        Assim, agora, estou aqui. Ponta fina de agulha equilibrada entre os dedos da mão direita, pairando sobre a palma aberta da mão esquerda. Algumas anotações em volta, tomadas há muito tempo, o guardanapo de papel do bar, com aquelas palavras sábias que não parecem minhas e aquelas outras, manchadas, que não consigo ou não quero ou finjo não poder decifrar.
        Ainda não comecei.
        Queria tanto saber dizer Era uma vez. Ainda não consigo. Mas preciso começar de alguma forma. E esta, enfim, sem começar propriamente, assim confuso, disperso, monocórdio, me parece um jeito tão bom ou mau quanto qualquer outro de começar uma história. Principalmente se for uma história de dragões. Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão saber ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos. Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, às três da tarde ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se estivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar - que seja doce.
        Mas no tempo em que vivia comigo, eu tentava - digamos - adaptá-lo às circunstâncias. Dizia por favor, tente compreender, querido, os vizinhos banais do andar de baixo já reclamaram da sua cauda batendo no chão ontem às quatro da madrugada. O bebê acordou, disseram, não deixou ninguém mais dormir. Além disso, quando você desperta na sala, as plantas ficam todas queimadas pelo seu fogo. E, quando você desperta no quarto, aquela pilha de livros vira cinzas na minha cabeceira.
        Ele não prometia corrigir-se. E eu sei muito bem como tudo isso parece ridículo. Um dragão nunca acha que está errado. Na verdade, jamais está. Tudo que faz, e que pode parecer perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é apenas parte dessa estranha natureza dos dragões. Na manhã, ira tarde ou na noite seguintes, quando ele despertasse outra vez, novamente os vizinhos reclamariam e as prímulas amarelas e as begônias roxas e verdes, e Kafka, Salinger, Pessoa, Clarice e Borges a cada dia ficariam mais esturricados. Até que, naquele apartamento, restássemos eu e ele entre as cinzas. Cinzas são como seda para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembram destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar.
        Além de tudo: eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento; tão delicado de contar - você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quando perguntasse assim: mas então você só acredita naquilo que vê? Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: “Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não é visível”.
        Ele gostava tanto dessas palavras começadas por in - invisível, inviolável, incompreensível -, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias.
        Ele cheirava a hortelã, a alecrim. Eu acreditava na sua existência por esse cheiro verde de ervas esmagadas dentro das duas palmas das mãos. Havia outros sinais, outros augúrios. Mas quero me deter um pouco nestes, nos cheiros, antes de continuar. Não acredite se alguém, mesmo alguém que não tenha um mundo pequeno, disser que os dragões cheiram a cavalos depois de uma corrida, ou à cachorros das ruas depois da chuva. A quartos fechados, mofo, frutas podres, peixe morto e maresia - nunca foi esse o cheiro dos dragões.
        A hortelã e alecrim, eles cheiram. Quando chegava, o apartamento inteiro ficava impregnado desse perfume. Até os vizinhos, aqueles do andar de baixo, perguntavam se eu andava usando incenso ou defumação. Bem, a mulher perguntava. Ela tinha uns olhos azuis inocentes. O marido não dizia nada, sequer me cumprimentava. Acho que pensava que era uma dessas ervas de índio que as pessoas costumam fumar quando moram em apartamentos, ouvindo música muito alto. A mulher dizia que o bebê dormia melhor quando esse cheiro começava a descer pelas escadas, mais forte de tardezinha, e que o bebê sorria, parecendo sonhar. Sem dizer nada, eu sabia que o bebê devia sonhar com dragões, unicórnios ou salamandras, esse era um jeito do seu mundo ir-se tornando aos poucos mais largo. Mas os bebês costumam esquecer dessas coisas quando deixam de ser bebês, embora possuam a estranha facilidade de ver dragões - coisa que só os mundos muito largos conseguem.
        Eu aprendi o jeito de perceber quando o dragão estava a meu lado. Certa vez, descemos juntos pelo elevador com aquela mulher de olhos-azuis-inocentes e seu bebê, que também tinha olhos-azuis-inocentes. O bebê olhou o tempo todo para mim. Depois estendeu as mãos para o meu lado esquerdo, onde estava o dragão. Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. Ele, o dragão, e também o bebê, e eu, e a mulher, e a japonesa que subiu no sexto andar, e um rapaz de barba no terceiro. Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de abril - esse é o mês dos dragões - dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir.
        Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca - amor. Se não o tempo todo, pelo menos quando lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e o avesso parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles.
        Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber por que, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e beringelas luzidias (os dragões, descobri depois, adoram contemplar berinjelas) que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos, pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que o espaço ficasse mais bonito.
        Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores - acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.
        Esses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Perguntei o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quando sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim...
        Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicadias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ir ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.
        Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos para ver se encontrava pelo menos o reflexo de suas escamas de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou a fumaça de suas narinas, cujas cores mudavam conforme seu humor. Que era quase sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dia após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.
        Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Eles não compreenderiam, ninguém compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias - você compreende?
        Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia quando aquele cheiro de frutas e flores e, pior que tudo, de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim - hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.
        Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pantanal de antes, cheio de possibilidades - que não aconteciam, mas que importa? - a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.
        Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto - porque não estou certo - coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?
        Não, não é assim. Isso não é verdade.
        Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. b aplauso seria insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto - pelo avesso, igual ao direito - incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim.
        Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.
        Quando volto a pensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas. solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e frutas e fitas, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesmo - tão banal e sedento - a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de s feliz.
        As manhãs são boas para acordar dentro delas, beber café, espiar o, tempo. Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos, porque são o que são e também nos olham, com olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: quase sem sentir.
        Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe. E esse nada incluiria o amor e Deus, e também os dragões e todo o resto, visível ou invisível.
        Nada, nada disso existe.
        Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia de mim.. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:
        - Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce. Não, isso também não é verdade.
       

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

. . .

'Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã

Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.'

(...)

Eu me libertei da culpa e dei de cara com algo novo: não me encaixo, e aceito. Não é justo perder as asas no momento em que se descobre tê-las. É preciso poder voar, é preciso ter uma visão estratégica das janelas. Ver o sol e não poder tê-lo é absurdo. Então eu deixo algumas coisas passarem incompletas porque tenho consciência de que certas palavras ainda não têm tradução. Por mais que eu grite, vai ter quem não entenda, não aceite. O que eu não aceito é ter nascido num mundo tão grande e conhecer só uma pequena parte. Vou voar. Quem conseguir compreender, que me acompanhe.  [Verônica H.]

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Eu conto que é bonita...

... a maneira como o vidro da janela deixa a manhã entrar em meu quarto. Seguro o sol com meus olhos e faço silêncio para ouvir os afetos delicados despertando. O agosto vai passando com sua violência hostil e tudo o que me importa é a poesia.
O que tem me atraído é a vontade bizarra de passar o dia inteiro tomando sorvetes e escrevendo todas as paixões. Por nada e qualquer coisa. Eu me observo e gosto de brincar com as cores no espelho. Encho o corredor da casa com meus bons dias, esqueço alguns sonhos na mesa e abro as portas sorrindo, sempre com um fiapo de amor entre os dentes.
Pelas ruas, entre passos apressados, um vento frio faz estremecer algumas certezas. Esqueço-as. Espalham-se todas pelo bosque onde passo sem nem notar. Já não amo ninguém. A escrita permanece atravessada. Minha língua guarda promessas e alguns planos. Guarda palavras ensaiadas para serem entregues a alguém que nem desconfia. Guarda um potinho de ilusões que espalham um gosto de estrela no céu da boca. É o que me faz sorrir.
Ontem falei de saudades e um cisco nos olhos foi a desculpa para a neblina. Todo o brilho coube no vermelho das pedrinhas desses brincos, flores pequenas que fazem meu rosto querer submergir em meio a um par de olhos escuros sobre os quais escreveria por mera distração. Ou atenção demasiada. Um quintal, um jardim. Par de olhos esses que às vezes se escondem e brincam com o castanho que guardo, pedindo-lhe para que os encontre.
Não me explico, optei por sentir. É como quando as duas mãozinhas delicadas da minha outra menina, pequena, desenham minha face: tudo fica doce. E também diria ainda das cartas que me esperam na cama, uma vez por mês, pintadas de carinhos que saltam tão logo os envelopes são abertos. Minha letra diminuta demora, emudece, e depois responde, apertada, que é para amarrar as coisas mais lindas e remetê-las todas de um jeito muito leve.
Quando me perguntam o porquê das tardes de repente ficarem tão amarelas, eu finjo nem saber, mas desconfio. Sinto logo as amoras estalando em meus dentes, vejo o céu descabelando as nuvens e a felicidade me desarrumando inteira. Efeitos que componho enquanto tento equalizar o silêncio, carícia mais suave.
Em meio a uma imensidão de desejos embaralhados, separo uma história. A da poesia que derramou-se em meu vestido quando o amor adormeceu em meus ombros.
Eu venho por um motivo. Esse, que me alarga os lábios enquanto dá voltinhas alegres em minha boca.

'Ele gostava quando ela dizia: sabe, nunca tive um papo com outro cara assim que nem tenho com você. Ela gostava quando ele dizia gozado, você parece uma pessoa que eu conheço há muito tempo. E de quando ele falava calma, você tá tensa, vem cá, e a abraçava e a fazia deitar a cabeça no ombro dele para olhar longe, no horizonte do mar, até que tudo passasse, e tudo passava assim desse jeito. Ele gostava tanto quando ela passava as mãos nos cabelos da nuca dele, aqueles meio crespos, e dizia bobo, você não passa de um menino bobo...'

Caio Fernando Abreu, sempre.

Metal Contra As Nuvens

I

Não sou escravo de ninguém
Ninguém, senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E, por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz.


Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.

Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição,
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos.

Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá.


II

Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa.

Quase acreditei, quase acreditei

E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo.

Olha o sopro do dragão...


III

É a verdade o que assombra
O descaso que condena,
A estupidez, o que destrói

Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.


Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.

Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então.


IV

- Tudo passa, tudo passará...

E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos.


[LEGIÃO URBANA]

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Eu procuro sinais teus. Na verdade eu procuro a sensibilidade do menino de dentro de ti e não encontro mais. Lembra da voz macia e das brincadeiras? Dos pequenos presentes e pores-do-sol juntos? Lembra dos almoços, com a comida preferida? Da surpresa de um sorriso no meio do dia, de uma frase não esperada e dita? Sua sensibilidade me abraçava todos os dias. Ora, como mostrar isso pro meu coração e fazer ele entender que o menino na verdade não a tinha, ou a tinha e a perdeu!?


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

SINTAXE À VONTADE


Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
a partir de sempre
toda cura pertence a nós
toda resposta e dúvida
todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
todo verbo é livre para ser direto ou indireto
nenhum predicado será prejudicado
nem tampouco a vírgula, nem a crase nem a frase e ponto final!
afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas
e estar entre vírgulas é aposto
e eu aposto o oposto que vou cativar a todos
sendo apenas um sujeito simples
um sujeito e sua oração
sua pressa e sua prece
que a regência da paz sirva a todos nós... cegos ou não
que enxerguemos o fato
de termos acessórios para nossa oração
separados ou adjuntos, nominais ou não
façamos parte do contexto da crônica
e de todas as capas de edição especial
sejamos também o anúncio da contra-capa
mas ser a capa e ser contra-capa
é a beleza da contradição
é negar a si mesmo
e negar a si mesmo
é muitas vezes, encontrar-se com Deus
com o teu Deus
Sem horas e sem dores
Que nesse encontro que acontece agora
cada um possa se encontrar no outro
até porque...

tem horas que a gente se pergunta...
por que é que não se junta
tudo numa coisa só?
 
[FERNANDO ANITELLI]
 

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

'Sou louco porque vivo em um mundo que não  merece minha lucidez'

[Bob Marley]




'A gente tem que passar o lado bom, mesmo que ele só exista na nossa mente.' [Didio Lee]

domingo, 12 de setembro de 2010

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

[Amyr Klink]

(E nós viajamos sempre à procura desse pôr-do-sol, pra ver o céu mudar de cor...)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Eu conto que é bonita a maneira como o vidro da janela deixa a manhã entrar em meu quarto. Seguro o sol com meus olhos e faço silêncio para ouvir os afetos delicados despertando. O agosto vai passando com sua violência hostil e tudo o que me importa é a poesia.

O que tem me atraído é a vontade bizarra de passar o dia inteiro tomando sorvetes e escrevendo todas as paixões. Por nada e qualquer coisa. Eu me observo e gosto de brincar com as cores no espelho. Encho o corredor da casa com meus bom dias, esqueço alguns sonhos na mesa e abro as portas sorrindo, sempre com um fiapo de amor entre os dentes.

Pelas ruas, entre passos apressados, um vento frio faz estremecer algumas certezas. Esqueço-as. Espalham-se todas pelo bosque onde passo sem nem notar. Já não amo ninguém. A escrita permanece atravessada. Minha língua guarda promessas e alguns planos. Guarda palavras ensaiadas para serem entregues a alguém que nem desconfia. Guarda um potinho de ilusões que espalham um gosto de estrela no céu da boca. É o que me faz sorrir.

Ontem falei de saudades e um cisco nos olhos foi a desculpa para a neblina. Todo o brilho coube no vermelho das pedrinhas desses brincos, flores pequenas que fazem meu rosto querer submergir em meio a um par de olhos escuros sobre os quais escreveria por mera distração. Ou atenção demasiada. Um quintal, um jardim. Par de olhos esses que às vezes se escondem e brincam com o castanho que guardo, pedindo-lhe para que os encontre.

Não me explico, optei por sentir. É como quando as duas mãozinhas delicadas da minha outra menina, pequena, desenham minha face: tudo fica doce. E também diria ainda das cartas que me esperam na cama, uma vez por mês, pintadas de carinhos que saltam tão logo os envelopes são abertos. Minha letra diminuta demora, emudece, e depois responde, apertada, que é para amarrar as coisas mais lindas e remetê-las todas de um jeito muito leve.

Quando me perguntam o porquê das tardes de repente ficarem tão amarelas, eu finjo nem saber, mas desconfio. Sinto logo as amoras estalando em meus dentes, vejo o céu descabelando as nuvens e a felicidade me desarrumando inteira. Efeitos que componho enquanto tento equalizar o silêncio, carícia mais suave.

Em meio a uma imensidão de desejos embaralhados, separo uma história. A da poesia que derramou-se em meu vestido quando o amor adormeceu em meus ombros. Eu venho por um motivo. Esse, que me alarga os lábios enquanto dá voltinhas alegres em minha boca.

[Jaya Magalhães]



'BONS VENTOS PARA NÓS PARA ASSIM SEMPRE SOPRAR SOBRE NÓS...'

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

'O que a memória amou, fica pra sempre...'


Pra você, Vanessa.
E porque elas se vão assim, tão fácil? É, elas, essas coisas que não tem nomes, sabe?... E porque a gente tem que aprender sempre tudo de novo? Porque tem de ficar pra trás? Guardamos dentro, bem lá dentro e quando queremos lembrar de novo, estará sempre ali... É isso?
Hoje eu senti falta de você, senti falta da gente, quando brincávamos de menino e corríamos pelas ruas. As bicicletas, as disparadas a cavalo, brincadeira na cidade pequena. Sorrio aqui comigo, agora, junto do aconchego do meu bem querer por você pelos nossos anos de amor sincero. Sim, por que somos juntas, somos desde os sete anos de idade, em que você era uma menininha malvada e frágil, mimada e gananciosa, sofrida também, embora escondesse todo esse sentimento com você muitas vezes, cresceu, pintou os cabelos e as unhas de vermelho, chocou a vizinhança,  mas espantou todo mundo com grande personalidade. Hoje, tanto tempo depois, teus olhinhos de cristais, como eu costumo dizer carinhosamente, brilham numa linda alma de borboleta, com toda tua falta de delicadeza às vezes, mas borboleta que mesmo longe, voa sempre dentro de mim.
Na Índia, são ensinadas as "quatro leis da espiritualidade":

A primeira lei diz: "A pessoa que vem é sempre a pessoa certa".

Ninguém entra em nossas vidas por acaso. Todas as pessoas ao nosso redor, interagindo com a gente, têm algo para nos ensinar e colaboram no avanço de cada situação.

A segunda lei diz: "Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido".

Nada, nada absolutamente nada, do que acontece em nossas vidas poderia ter sido de outra forma. Mesmo o menor detalhe. Não há nenhuma outra opção. O que aconteceu foi tudo o que poderia ter acontecido, para aprendermos uma lição e seguirmos em frente. Todas, e cada uma das situações que acontecem em nossas vidas, são absolutamente perfeitas.

A terceira lei diz: "Toda vez que você tomar uma decisão, será sempre o momento certo".

Tudo só começa na hora certa, nem antes, nem depois. Somente quando estivermos prontos para iniciar algo novo em nossas vidas, é que as coisas acontecerão.

A quarta lei diz: "Quando algo termina, é porque foi concluído".

Simplesmente assim. Se algo acabou em nossas vidas é para a nossa evolução. Por isso, é melhor soltar, seguir em frente enriquecido pela experiência. Não é por acaso que estamos lendo este texto agora. Se ele vem à nossa vida hoje, é porque estamos preparados para entender que "nenhum floco de neve cairá no lugar errado".










- Sempre ele, Caio Fernando Abreu
'A estrela que eu escolhi não cumpriu com o que eu pedi
E hoje não a encontrei
Pois caiu no mar, e se apagou
Se souber nadar, faça-me o favor
O milagre que esperei nunca me aconteceu
Quem sabe só você
Pra trazer o que já é meu'

[ANITELLI]

'Não chore ainda não

Que eu tenho um violão

E nós vamos cantar

Felicidade aqui...'


[Chico Buarque]
[...] Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez


Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais.


[Chico Buarque e Edu Lobo]