sábado, 7 de maio de 2011

‘O medo de amar é o medo de ser
livre para o que der e vier
livre para sempre estar
onde o justo estiver
O medo de amar é medo de ter
de todo momento escolher
com acerto e precisão
a melhor direção
O sol levantou mais cedo e quis
em nossa casa fechada entrar - pra ficar
O medo de amar é não arriscar
esperando que façam por nós
o que é nosso dever - recusar o poder
O sol levantou mais cedo e cegou...’

quinta-feira, 21 de abril de 2011

-TREM NOTURNO PARA LISBOA-

“VIVO EM MIM PRÓPRIO COMO NUM TREM EM MOVIMENTO. Não entrei nele por livre e espontânea vontade, não pude escolher e sequer conheço o local de destino. Um dia, num passado distante, acordei no meu compartimento e senti o movimento. Era excitante, escutei o barulho das rodas, pus a cabeça para fora da janela, senti o vento e me deliciei com a velocidade com que as coisas passavam por mim. Eu queria que o trem jamais interrompesse a sua viagem. De maneira nenhuma eu queria que ele parasse para sempre em algum lugar. 
                        Foi em Coimbra, num banco duro de auditório, que me dei conta: não posso mais sair. Não posso mudar de linha nem de direção. Não sou eu quem determina a velocidade. Não vejo mais a locomotiva e não posso reconhecer quem a conduz, nem se o condutor parece ser de confiança. Não sei se ele lê os sinais corretamente e percebe quando uma agulha de trilhos está errada. Não posso trocar de compartimento. Vejo pessoas passando no corredor e penso: quem sabe nos seus compartimentos tudo é bem diferente do que aqui. Mas não posso ir lá e ver, pois um cobrador que nunca vi e nem vou ver trancou e selou a porta do compartimento. Abro a janela, debruço-me para fora o máximo que consigo e vejo  que todos os outros fazem o mesmo. O trem percorre uma suave curva. Os últimos vagões ainda estão no túnel e os primeiros já voltaram para dentro dele. Quem sabe, o trem anda em círculos, sempre, sem que alguém perceba, nem mesmo o condutor? Não tenho a menor ideia do tamanho da composição. Vejo todos os outros que esticam os pescoços para ver e entender alguma coisa. Saúdo-os, mas o vento leva as minhas palavras para longe.
                        A iluminação no compartimento muda sem que eu possa determinar qualquer coisa. Sol e nuvens, crepúsculo e madrugada, chuva, neve, tempestade. A luz no teto é mortiça, torna-se mais clara, começa a ofuscar, treme, apaga-se, volta, é uma lamparina, um castiçal, um tubo de néon cintilante, tudo ao mesmo tempo. A calefação não é confiável. Pode aquecer com calor e falhar com frio. Quando aciono o interruptor, ouço o clique-claque, mas nada muda. Estranho que nem mesmo o sobretudo me aquece sempre da mesma forma. Lá fora as coisas parecem estar indo no seu rumo habitual e normal. Será que isso acontece também no compartimento dos outros? No meu, de qualquer forma, as coisas se passam de forma diferente do que eu esperava, bem diferente. O construtor do trem estaria bêbado? Louco? Um charlatão diabólico?
[...]
                        Adoro túneis. Eles são, para mim, a imagem da esperança: algum momento tudo voltará a ficar claro. Caso não seja noite.
                        Às vezes recebo visitas no compartimento. Não sei como isto é possível com a porta trancada e selada, mas acontece. Geralmente esta visita vem num momento impróprio. São pessoas do presente e do passado. Vêm e vão, conforme querem, não têm respeito e me incomodam. Preciso falar com elas. É tudo provisório, descomprometido, votado ao esquecimento, conversas de trem. Alguns visitantes desaparecem sem deixar rastro. Outros deixam rastros pegajosos e fétidos, não adianta arejar. Nestas horas quero arrancar todo o mobiliário do compartimento para trocar por um novo.
                        A viagem é comprida. Há dias em que desejo que seja infinita. São dias invulgares, preciosos. Há outros em que fico aliviado por saber que haverá um último túnel em que o trem parará para sempre.”

sexta-feira, 25 de março de 2011

‘Vou sorrir, brincar, dançar, cantar, vou te falar coisas que até eu acho idiota, vou falar de coisas absurdas e bagunçar o seu cabelo, vou te abraçar e desejar bom dia, boa tarde e boa noite, vou ficar calada te escutando e olhar nos seus olhos pra falar com você. Vou estar lá, vou fazer piadas sem graça pra te fazer rir e vou dar crise de riso quando todo mundo estiver sério. Essa sou eu. Então não pense que me ama por que sou legal com você, não diga que sente uma coisa que você não sente, porque acredito e geralmente as pessoas não me vêem chorar...’

-falas do silêncio-

segunda-feira, 21 de março de 2011



Falta tanta coisa na minha janela
Como uma praia
Falta tanta coisa na memória
Como o rosto dela
Falta tanto tempo no relógio
Quanto uma semana
Sobra tanta falta de paciência
Que me desespero
Sobram tantas meias-verdades
Que guardo pra mim mesmo
Sobram tantos medos
Que nem me protejo mais
Sobra tanto espaço
Dentro do abraço
Falta tanta coisa pra dizer
Que nunca consigo
Sei lá,
Se o que me deu foi dado
Sei lá,
Se o que me deu já é meu
Sei lá,
Se o que me deu foi dado ou se é seu
Sei lá... sei lá... sei lá.... Se o que deu é meu...
Vai saber,
Se o que me deu , quem sabe?
Vai saber,
Quem souber me salve
Vai saber,
O que me deu, quem sabe?
Vai saber,
Quem souber me salve

domingo, 13 de março de 2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

Quando estiver terminando o verão
Quero ver o pôr-do-sol desaparecer
Dentro dos teus olhos de calmaria
E ser para ti, no fim desse dia,
Parte das coisas que escondes
De mim, de todos e até Deus,
Mais profundas que um segredo;
E voltando pela praia que escurece
Virei cantando, baixinho,
Quase como uma prece:
O dono de meus olhos
Tem os olhos onde o sol
Gosta de morrer.

[ Cáh Morandi ]

sexta-feira, 4 de março de 2011

...

" Vai menina, fecha os olhos.
Solta os cabelos.
Joga a vida.
Como quem não tem o que perder.
Como quem não aposta.
Como quem brinca somente.
Vai, esquece do mundo.
Molha os pés na poça.
Mergulha no que te dá vontade.
Que a vida não espera por você.
Abraça o que te faz sorrir.
Sonha que é de graça.
Não espere.
Promessas, vão e vem.
Planos, se desfazem.
Regras, você as dita.
Palavras, o vento leva.
Distância, só existe pra quem quer.
Sonhos, se realizam, ou não.
Os olhos se fecham um dia, pra sempre.
E o que importa você sabe, menina.
É o quão isso te faz sorrir. E só. "