segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


Eu queria te contar que não dói mais. Só que agora não importa tanto o que você vai pensar sobre isso.
Queria que você soubesse que já vi nossos filmes milhares de vezes e nem chorei. Ok, chorei. Mas pelo filme, e não por você.
Queria que você soubesse que tirei a poeira das nossas músicas, e que as ouço quase todos os dias. Porque elas me faziam mais falta do que você fez.


Os nossos lugares não são mais nossos. Eu já voltei lá com outras pessoas, e escrevi lá outras histórias...
Eu estou aprendendo a tocar violão. E a primeira música que toquei foi aquela música que era uma espécie de hino pra nós dois. Ela é tão linda...e sim, ela continua sendo muito nossa e lembrando demais você. Mas ainda sim, não dói.
Você não pergunta essas coisas, mas sei que gostaria de saber. Porque te conheço. E isso não mudou.
Do mesmo jeito que adivinhei as coisas ruins que você aprontaria, eu sei as coisas boas que ficaram aí em você e te fazem lembrar de mim.


Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força.Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. 
E a gente lembra. E já não dói mais. Mas dá saudade. Uma saudade que faz os olhos brilharem por alguns segundos e um sorriso escapar volta e meia, quando a cabeça insiste em trazer a tona, o que o coração vive tentando deixar pra trás.


(Então eu pego o passado, e transformo em poesia-ou-coisa-assim.)

(Caio F. Abreu)

domingo, 3 de fevereiro de 2013



'Ilumina oh minha mãe
Esse medo, por favor,
Me mostre a liberdade de viver no seu amor
Me leve as profundezas
Das minhas emoções
Pra eu ver com clareza inconscientes negações
Que me deixam dormindo em distorcido prazer
Seguindo distraído tão distante de você
Como você eu quero ser
Como lua clarear
Refletindo a luz do sol
Para a noite iluminar
Rumo ao oceano
Nas suas águas brincar
Só beleza apreciando
Para a vida celebrar
Ilumina oh minha mãe
Esse medo, por favor...

Oh mãe
Oh mãe de Deus
Proteja os filhos seus
Oh mãe
Oh mãe de Deus

Perdoe os filhos seus
Deixamos brilhar
A flor florescer
A vida revelar
A verdade do meu ser
Deixa o sol nascer
Dentro do meu coração
O amor manifestar
A mais pura gratidão
Oh mãe
Mãe natureza
Mostrai- nos vossa beleza
Oh mãe
Mãe natureza
Lembrai-nos da nossa essência
Interceda junto ao Pai levando a minha oração
O pedido é a benção
Que me trás aceitação
A vós quero servir
Junto a ti quero seguir
Aprendendo a dizer sim para tudo que a de vir...
Oh mãe, oh mãe de Deus...'



Meu plano


Eu queria virar uma história bonita em meio a tanta história bonita que andava ouvindo por aí. Esse talvez tenha sido o meu único plano da vida inteira: uma história bonita.

Meu plano não era que ele preenchesse meus espaços. Não era contar o que penso, quando penso nele – e penso muito. Não era beijá-lo antes de saber sua cor preferida, apesar de achar que ele fica muito bem de amarelo. Não era abraçá-lo sem que ele soubesse que ainda sou a menina do texto de Vinicius, sem a flor. Meu plano não era gostar tanto dos seus olhos me enxergando de cima e querer meu corpo junto ao seu mais um pouquinho.

Meu plano não era sonhar uma parede branca para escrevermos nossas inspirações de amor barato sempre que desse vontade. Não era me apaixonar por ele mais tarde. Ou de manhã cedinho. Ou qualquer hora que eu olhasse o relógio. Não era me apaixonar por ele a qualquer tempo, o tempo inteiro. Não era ouvi-lo dizer que parecia estar vivendo tudo o que um dia escreveu sonhando e sentir a mesma coisinha, em todos os detalhes.

Meu plano não era me esquecer naquele cara logo no primeiro segundo em que nos encontramos. Não era ir trazendo-o para mim enquanto aquelas garrafas de cerveja iam sendo esvaziadas entre palavras demais, sorrisos demais, olhares demais. Não era. Não era comer todos os beijos que estavam em sua boca durante minha presença. Não era saber que não ia me saciar tão cedo.

Meu plano não era tanto carinho. Tanto toque. Tanta vontade. Não era deixar nossas palavras se enlaçarem. Não era andar por aí de mãos dadas com ele, sentir um frisson desarrumado dentro do seu abraço, me acostumar com todos aqueles lugares diferentes apenas por tê-lo ao lado. Não era deixar aquele emaranhado de coisas acumuladas despencando pelas ruas de pedra do Pelourinho enquanto caminhávamos em cima da poesia alheia.

Meu plano não era meu coração balançar no dia seguinte, na hora de dizer tchau. Não era convidá-lo a vir embora comigo. Não era fazer o caminho de volta completamente anestesiada de uma paixão que ainda não sabia ter nome. Não era ficar assustada com uma saudade que quase dava pra tocar, de tanto que era sentida. Não era chorar quando ele me disse uma coisa bonita, nem me perder a cada vez que lembro um momento nosso.

Meu plano não era me apaixonar. Não era me apaixonar por um cara tão chato quanto eu. Não era me deixar levar por um cara que tem uma lábia tão sacana. Não era conhecer melhor esse cara, encontrar afinidades, poesia, terapia, delicadeza, loucura, intensidade, música, sensibilidade. Não era deixar que as palavras antecipassem nossos momentos. Não era desativar todos os meus freios apenas por estar louca de curiosidade para ver onde vamos chegar. Não era nada disso. Meu plano não era me encontrar, nesse cara.

Meu plano não era chamá-lo para deitar ao meu lado, naquele dia de manhã cedinho. Meu plano não era que nos encaixássemos tão bem. Não era gostar de fazer um carinho em seus cabelos, de dar uma mordida em seus lábios e tampouco de me esquecer em seus ombros. Não era me acostumar com sua presença, um pouquinho mais a cada dia. Não era seguir desatenta para lugar algum e chegar onde estamos. Não era querer fazer dar certo. Muito certo, mesmo eu sendo tão errada. Não era deixar ligar uma emoção tão vermelha assim, em mim.

Meu plano não era deixá-lo cravar suas vontades em meu peito. Ser dele como nunca antes havia sido de ninguém. Não era sorrir ao tê-lo e muito menos que nos notássemos assim, intensos demais, borrados de todasascores, alicerçados por desejos, sem marcar tempo ou dar medidas. Não era que ele me fizesse esquecer onde já doeu, que me tomasse o medo de encarar meus medos. Não era que seus gestos doces desprendessem todas aquelas coisas lindas que já andavam esquecidas aqui dentro. Não era que ele as tivesse tão facilmente.

Meu plano não era escrever um primeiro texto assim. Não era, tão cedo, passar a encontrá-lo em tudo o que leio. Tudo o que ouço. Não era deixar meu coração dançar quando ele me entregou aqueles versos no papel. Não era permiti-lo desafiar minhas certezas em relação ao que havia adormecido. Permiti-lo acordar constelações pequenas que já reluziam meio fracas do meu lado de dentro. Não era estar como agora, fazendo sol por qualquer motivo.

Meu plano em nenhum momento foi perder as chaves quando o deixei entrar. E talvez agora ele se embarace nessas linhas. Talvez ele se embarace e, no final, ao resolvermos montar as coisas certas, terminemos levando as palavras um do outro. Quem sabe um novo poema seja escrito. Quem sabe já estejamos escrevendo-o desde que existiu aquela ponte entre dois olhares. Carrego ainda cachos daqueles afetos azuis pendurados em meus cílios. Meu plano não era fazer dessa uma história bonita. Meus planos não mudaram.

Meu plano, hoje, é ele. A minha história. A mais bonita.


[Jaya Magalhães]